Muita gente me diz que tenho talento para desenhar. Eu não acredito, pois a maioria dos meus desenhos são cópias de outros, releituras, aumentos de miniaturas. Tenho momentos de criação, mas nunca gosto deles. E também não vivo desenhando, gosto mais de escrever, é até mais prático.

Uma vez, na quarta série, fui escolhida para fazer o estandarte representante da minha turma no bloco do colégio para o Carnaval. Quem quisesse participar tinha que fazer uma miniatura. A classe votou e o meu foi escolhido. Era um desenho que eu tinha reproduzido de um livro, um menino numa burrinha.

Um dia antes da festa, a professora de artes me chamou e levou para o atelier para que eu fizesse o desenho em tamanho de estandarte, coisa de um metro e vinte por um metro. Me desesperei. Foi muito fácil copiar o desenho do livro, pintar e decorar, ainda que tenha sido no olhômetro. Aos dez anos nunca tinha feito algo de tamanha proporção. Morri de medo, minhas mãos suavam. Os colegas escolhidos para me ajudarem olhavam para mim, apreensivos. Toda a classe dependia daquele desenho e a responsabilidade era minha.

Foi então que descobri outra coisa. Além de conseguir reproduzir coisas em tamanhos bizarros, também consigo trabalhar bem sob pressão. Uso esse episódio do estandarte para minha vida inteira. Queria ter uma foto do danado.

13/30