Um homem dormindo no sofá, nu. Seu pênis flácido virado para o lado colado na perna meio dobrada a outra esticada uma mão na barriga e os pelos do peito bem distribuídos em volta dos mamilos. Essa visão a encantou por vários minutos, olhando para ele do lado oposto do sofá, de onde também conseguia ver toda a sala escura, iluminada por uma luz fraca que vinha da rua. Tentava espantar os pensamentos de que fantasmas estariam em cada contorno daquele cômodo que seus olhos extremamente míopes tentavam decodificar. É só uma cadeira com almofadas. É só uma decoração de natal. É só uma escultura de cabeça na mesa de centro. Felizmente ela conhecia cada canto da sala. Talvez um daqueles fantasmas só quisessem morar em sua barriga. A camisinha usada em cima do braço do sofá, no entanto, frustrava o sonho de qualquer fantasminha. Sua menstruação desceria quando seu útero quisesse matar alguém. Ali, não havia lugar para a vida. Tinha sido assim desde a primeira, quando seu colega de classe faleceu num acidente de carro aos treze anos. Ela estava numa loja qualquer e sentiu algo quente escorrendo na sua calcinha. Voltou para casa caminhando com sua mãe, foi ao banheiro e viu a mancha de sangue. Avisou à mãe que lhe deu um absorvente. Não quero que ninguém saiba, não ligue para ninguém da família por favor não quero passar vergonha como minhas primas passaram isso não é um acontecimento, avisou. Mas era um acontecimento. Alguns minutos depois, liga sua melhor amiga. Mateus morreu num acidente de carro vindo com a família de Gravatá. Morreu todo mundo, até sua meia-irmã bebê. Só podia ser minha menstruação, sangue, morte, pensou. Marcou aquela data 28 de julho. Sua segunda menstruação levou embora seu hamster. O bicho não sobreviveu a um câncer de próstata. Sua menstruação transformou em fantasma outros hamsters, algumas pessoas famosas, Cássia Eller, parentes próximos e distantes, sei lá mais quem, acidentes de avião com inúmeras vítimas, uma hora ela perdeu o controle. Com medo de seu útero assassino causar a partida de mais pessoas, teve um período de seis meses sem menstruar. Ainda não transava, com certeza não era um feto, era medo dessa coisa assassina dentro dela. Será que foi porque nasci numa sexta-feira 13? Eu devo ser algum tipo de bruxa? Eu sou a vilã dessa história? Não havia respostas. Apenas a certeza de que aquele útero só geraria o oposto da vida.





















1 Comentários
emotional damage 🥲
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