Sylvia Plath, em A Redoma de Vidro, observa, atônita, sem conseguir dar um passo, os figos caÃrem da imensa figueira aos seus pés. Cada figo, uma possibilidade. Em cada figo, um amor. Em cada figo, um trabalho. Em cada figo, um desejo.
A maioria das pessoas talvez não seja como Sylvia, quero dizer, não pensa demais, não está paralisada pelos horrores da mente. Mas, será?! Será que essa vida material não passa rápido demais, tão rápido que não percebemos os figos que escolhemos comer e os que deixamos aos pés da figueira? Seria a rapidez, a sensação humana do tempo, o que nos tornaria incapazes de saborear devidamente cada figo colhido?
E, se, em vez da paralisia de Sylvia diante dos figos, a pessoa quiser experimentar um pouco de cada figo? Sentir o amargor, a doçura, o ranço, fazer uma geleia de figos, amassar os figos entre os dedos, pisar nos figos, jogá-los para cima só para vê-los girando caindo se espatifando no chão. Talvez eu apenas esteja dizendo o mesmo que Sylvia, mas com palavras menos poéticas e mais doidas. É que as pessoas são universos, ao mesmo tempo grandes e pequenas demais para suportarem tantos figos.
Eu já larguei no chão o figo da arquitetura. Colhi, larguei no chão, e peguei novamente o figo das ciências da linguagem. Em algum momento na juventude, me agarrei fortemente ao figo do amor, eu amo sempre, eu não consigo largar esse figo, mesmo que minha imaginação me leve a outros figos tão apetitosos pendurados na minha frente. Alguns figos deixam de ser nossos. Aliás, nenhum figo é completamente nosso. Eventualmente nossa figueira será derrubada e viraremos nós adubo para outras figueiras.
Será que usei mais a palavra “figo” do que Sylvia Plath? Não sei, nem vou contá-las, eu só queria pensar nos meus figos, assim, bem egoisticamente. Sinto que estou indo para os caminhos dos clichês e vou encerrar esse texto assim, de forma abrupta.





















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