Vincent Van Gogh - Piles of French Novels and a Rose
Vincent Van Gogh - Piles of French Novels and a Rose, 1887

Ultimamente tenho lido bastante. Menos do que gostaria, mas muito mais do que o normalmente consigo ler. De vez em quando me meto a escrever uma coisa ou outra que meu coração manda, mas não vou muito além de sonhos e pensamentos, de coisas da minha realidade ou de histórias antigas. Em algum momento desse ano cheguei a dizer numa rede social que a escrita era minha maior qualidade e também minha ruína (ou algo parecido) e ainda acredito nisso. Reconheço que tenho alguma habilidade para colocar ideias em palavras, mas nem sempre elas são suficientes. Também reconheço que já feri pessoas com coisas que escrevi. Já expressei amor, amizade, já deixei o silêncio falar. As coisas que escrevo já estavam dentro de mim de alguma forma, só precisavam se materializar.

O que me leva a pensar nas coisas que leio. Alguns escritores conseguem criar imagens tão vivas de coisas tão horríveis e isso me impressiona. Por um lado, sinto e consigo imaginar as dores e horrores descritos. Por outro lado, me pergunto sobre o processo que levou a pessoa a escrever algo do tipo. São pessoas que escrevem sobre traumas, crimes, violência, mas de uma maneira que só poderia virar uma obra-prima.

E aí eu chego a uma questão que meus alunos de literatura me perguntam com alguma frequência. Por que os livros de "comédia romântica" ou romances são best-sellers, mas não são estudados na academia? Olha, sinceramente, eu nunca consigo responder de forma satisfatória e sempre uso a justificativa dos clássicos (para minha sorte, nunca dá tempo de chegar na contemporaneidade nas disciplinas que leciono). Entretanto, a resposta não poderia ser uma coisa simplória como "ah, romance é algo que quase todo mundo tem ou quer, então é tudo bem parecido, não tem como surgir uma nova Jane Austen". Ou "todo mundo quer coisa boa, vamos ver como eram os horrores da guerra", mas aí lembramos que vivemos no capitalismo e todo mundo fica triste.

Então, seguindo meu raciocínio, se as coisas que escrevo já estavam dentro de mim, as coisas que os autores escreveram já estavam dentro de cada um? Não sei se é precisamente isso, já que nem toda história é autobiografia. Pessoalmente, gosto de acreditar que o espírito guarda coisas. Por exemplo, como uma criancinha consegue falar uma palavra que ela nunca ouviu? Eu já li tantas teorias de aquisição da linguagem e apenas nenhuma consegue explicar isso.

Assim, para tentar explicar os mistérios, eu gosto de usar o espírito. Nosso espírito sente quando uma obra nos sensibiliza de uma maneira especial. Sentimos a diferença de emoção causada por um casal apaixonado no final do livro, e aquela causada por uma mulher sentindo que está tomando as rédeas da própria vida, ou pelo veterano de guerra admitindo um trauma, tentando seguir em frente. As imagens são diferentes, as palavras são outras, algumas são comuns e outras extraordinárias. Algumas nos matam por dentro, outras acendem nossa vontade de viver.

E eu queria ter usado até hoje as palavras para fazer as pessoas sentirem apenas coisas boas, só queria ter expressado bons sentimentos, mas nem sempre eu consegui, nem sempre a vida me permitiu, meu espírito ainda não está neste nível.