Tecnocracinha

[Sei que meus posts geralmente são mais pessoais, existenciais, mas hoje eu quero escrever sobre tecnologia. Eu vi um vídeo (no final do post) que alugou um triplex na minha cabeça há semanas e sinto que preciso trazer algumas ideias do autor misturadas às minhas. Assim, a foto minha no início do post é apenas um bait para você pensar "como essa pessoa fofinha segurando florzinha pode pensar tanta atrocidade?"]

Uma das crianças (lá nos anos 70?) do início do vídeo, refletindo sobre como seria o ano de 2030, diz o seguinte: "I think people will be more regarded as statistics and not as actual people". Ela não poderia estar mais correta.

Vamos falar sobre tecnologia. Será que passar muito tempo no telefone é realmente o problema? Algumas das tecnologias mais perigosas são justamente aquelas que não questionamos. Elas existem desde sempre, são naturais, "é assim mesmo". Entretanto, todas as tecnologias parecem ter vieses ideológicos. A linguagem, algo tão querido pra mim, meu objeto de estudo, também pode ser vista como uma tecnologia com viés ideológico.

Num passado pré-revolução industrial talvez, as pessoas pareciam saber seu propósito de vida. Where do we come from? What are we here for? How should we live?

A tecnologia não respondia a essas questões fundamentais, por exemplo, a roda não determinava nosso pensamento, mas como passamos a nos locomover. Até que um monge inventou o relógio (para contar as orações, algo inofensivo). Mas aí a própria cultura humana foi modificada. Dividir as atividades em períodos de tempo, organizou nossa sociedade sem precedentes. 

Assim, a tecnologia vira a fonte de todo significado, da verdade, a resposta para todas as questões. Tudo se torna mensurável, educação, religião, senso de comunidade. Parece que a tecnologia sempre existiu, então não é possível questioná-la, já que ela molda o funcionamento de quase um planeta inteiro. Imagina só o sistema de notas - tecnologia inventada em 1792 - e jamais questionada (ou modificada) até hoje (e esse exemplo me choca sempre porque eu vivo isso todos os dias, com os alunos perguntando "vale nota"?). 

É fácil acreditar na tecnologia, a gente consegue ver o avião decolar, a calculadora calcular, o telefone ligar. Logo, quem comete erros é o humano.

Segundo o autor do vídeo, banir adolescentes de usar celulares é um sintoma. Controlar o tempo com aplicativos de produtividade é um sintoma. Fazer detox digital é um sintoma. Tentar significar o mundo através tecnologia, é a doença. Responder as questões fundamentais da vida com a tecnologia, é a doença.

E por que criamos as tecnologias? Produtividade, eficiência, estatísticas, e o bom e velho: por quê não? Se o objetivo é "facilitar nossa vida", por quê não gastar milhões, acabar os recursos do planeta, etc etc na invenção de qualquer coisa? Porém, como bem Mary Shelley nos mostrou com a alegoria de Frankenstein, não é porque uma coisa PODE ser criada, que ela DEVE ser criada.

Com a tecnologia no centro de tudo, os humanos são apenas consumidores, mercado, estatísticas, números em gráficos de pizza.

Onde, então, encontrar sentido para a vida? 

Deus está morto, já dizia o menino Nietzche, mas a tecnologia está bem viva e molda há séculos a educação, o trabalho, a cultura, a sociedade.

E quem pode argumentar contra estatísticas? Vamos botar uma mão no joelho e outra na consciência, né, gente?! Com os avanços na ciência lá na época do Iluminismo, as pessoas começaram a pensar, e se a gente pudesse medir e prever o comportamento da sociedade da mesma forma como podemos prever a rota de um navio? Será? Será que interpretar gráficos vai nos levar a entender os próximos passos da humanidade em termos de comportamento social? É possível medir aprendizado? É possível medir foco? É possível medir a mente humana? 

Claro que não, porra! E isso nos distrai de questões muito mais fundamentais e urgentes, por exemplo, melhor distribuição da riqueza, as guerras imbecis em toda parte, a fome, criar um sistema universal e gratuito de saúde, enfim, criar condições para que as pessoas vivam com dignidade.

Banir ou não banir celular? Colocar ou não limite de tempo nos aplicativos? Estou ou não sendo produtiva? Meio que foda-se né, se eu não tenho como ir ao médico quando estou doente, se minha criança não tem o que comer, se minha casa pode ser bombardeada a qualquer momento, se eu posso sofrer as consequências de alguma tragédia climática.

Mas o querido do vídeo vai além. Além de todos os vieses, moldes e questões fundamentais que a tecnologia vem impondo há anos, aprendemos a apenas confiar naquilo que é tecnológico e a deixar cada vez mais de lado o que é humano. Por exemplo, o médico precisa passar mil exames antes de dar um diagnóstico. Os estudantes acham que o texto produzido pela IA é melhor do que o que eles podem produzir. E, é claro, a IA deve elevar esse afastamento do humano, pois é usada de que forma? Isso mesmo, sem critério, sem crítica, sem julgamento, simplesmente porque confiamos mais na tecnologia.

Confiamos tanto, que estamos deixando a tecnologia pensar por nós. 

A ideologia está justamente em "deixe que escrevemos esse e-mail para você", "esse arquivo parece muito logo, leia um resumo feito pela IA", "o focus friend te impede de usar o celular enquanto você foca no que realmente importa". Acabou o nosso poder de julgamento, pois, através dos dados, a tecnologia (os apps milagrosos de foco, a IA que resume livros etc) resolve seus problemas, ou melhor, para usar as palavras do autor do vídeo, a tecnologia salva você. Não adianta, isso apenas vai substituir um problema por outro.

Assim, o que fez sentido pra mim - e me fez gostar tanto desse vídeo - foi o argumento do propósito. Só vamos deixar nossos telefones, apps, IAs etc. quando tivermos um propósito, algo para fazer no lugar e que traga algum tipo de significado. Quem queremos ser? Qual a nossa missão? Com quem queremos conversar, trocar ideias? O que queremos aprender? O telefone, a tecnologia deve ser apenas uma ferramenta, dentre tantas outras, que podem nos ajudar com algo, e não um meio de preencher um vazio. 

No entanto, nossa sociedade está num nível tão avançado de tecnocracia, que simplesmente não conseguimos responder mais a essas questões fundamentais (ou, se conseguimos, atrelamos nossas respostas aos bens materiais ou dentro da lógica da produtividade). Aliás, a constante sensação que nossa saudosa Banda Eva cantava nos anos 90 de "é o fim da aventura humana na Terra" muitas vezes nos tira a motivação para sequer pensar nessas coisas.

Como mudar? Como ocupar as tecnologias para propósitos que realmente importam para o ser humano? Como usar o telefone, as redes sociais sem ser dominada pelo scroll infinito (invenção que, na minha opinião deveria ter sido tão criminalizada quanto a bomba atômica)? Como espalhar a palavra de que, o problema não é a tecnologia, mas os usos que fazemos dela? Como iniciar a revolução para derrubar o capitalismo agora que entendemos que ele é a origem de todos os problemas?

Bom, para quem não quiser ver os quase 45 minutos do vídeo, sugiro que veja apenas a última parte, que começa lá pelos 38 minutos onde o autor apresenta as próprias sugestões para iniciar a revolução.



Postar um comentário

0 Comentários