Foto de uma praia com o céu cinza e dois arco-íris no horizonte. A areia está dourada pelo sol. Tem algumas pessoas ao longe.

Todo desejo implica uma perda, diz a psicanálise. Cá estou eu, alucinando de febre e pensando nas perdas que tive e terei este ano. A maior delas foi ter me perdido de mim. Talvez tenha sido. Ou talvez eu estivesse apenas escondida e me entreguei toda de uma vez. A essa altura eu não sei mais de muitas coisas que achava ter certeza. É impossível ter certeza das coisas. Impossível imaginar de quantas formas deus vai me punir pelas coisas que fiz. Aqueles crimes aos olhos do criador e de quem acredita nele. Eu acredito nele, então deve ser por isso. Também acredito estar no mundo onde a maioria sofre, cada um por motivos. Há apenas fragmentos de felicidade que muitos atribuem às coisas materiais, mas a felicidade é de cada um. A minha felicidade não está em ninguém, está em mim. Quem sente a felicidade sou eu. E nessa febre alucinógena a cabeça pensa coisas, destrava medos, procura motivos. Vou tomar uma dipirona.