As duas últimas semanas jogaram minha peruca pra trás, estou acabada. Poderia botar a culpa no eclipse, nas eleições, nos bloqueios golpistas nas estradas, no inferno astral - a gente nunca sabe quem é realmente o culpado e quem decide quais semanas serão boas e quais serão ruins. Eu tinha achado, inocentemente, que as coisas melhorariam um pouco após as eleições e aí tive que viver a vida real.

Na segunda-feira pós-eleições, eu estava feliz voltando pra casa e fiquei presa num engarrafamento horroroso. Fui seguindo o aplicativo waze que me levou para os piores lugares possíveis e eu me perdi duas vezes. Liguei pro meu marido chorando em duas ocasiões e o coitado não tinha nem como me ajudar. Fui dirigindo pela estrada chorando e tentando encontrar o retorno para o caminho da minha casa no escuro, passando por outra estrada cheia de curvas e sem acostamento. Cheguei em casa quase 3 horas depois de ter saído do trabalho, quase fazendo xixi nas calças.

Achei que isso tinha passado, mas não. Mais de uma semana depois, continuo tendo que voltar pra casa por um caminho alternativo e mais perigoso, sozinha, na estrada e no escuro. Eu uso óculos e dirigir no escuro é especialmente incômodo. Mas é isso ou chegar em casa todos os dias à meia-noite e desenvolver uma lesão por esforço repetitivo no pé da embreagem. Aí eu vou segurando nas mãos de Deus e lembrando que tudo pode ser pior e pelo menos eu não dependo de transporte público - e nem tem transporte que chegue onde eu moro.

A boa notícia é que os protestos no caminho de casa acabaram depois de poucos dias. A má notícia, é que, na mesma avenida, começaram obras enormes, causando esses engarrafamentos imensos e eu devo ter que continuar nessa saga até não se sabe quando. Não consigo encontrar informações sobre a obra na internet. Tenho esperança que ela termine junto com meu inferno astral.

Olhando pelo lado bom, estou em dia com meus podcasts preferidos e tenho melhorado minhas habilidades como condutora. Eu não dirijo mal, sou apenas prudente. Tenho ódio eterno a todas as pessoas que dirigem muito perto do carro da frente e sempre deixo passar porque Deus me livre desse povo sem paciência no trânsito. Também me irrito com quem ultrapassa sem necessidade e dou risada sozinha quando um apressado fica parado no sinal vermelho depois de ter tido o trabalho de ultrapassar todo mundo.

Então, é isso. Só me resta aceitar minha vida na estrada, baixar mais podcasts e músicas e sempre checar o waze antes de sair de algum lugar porque sempre pode ter uma nova obra ou um protesto. Em último caso, ligo chorando pro meu marido e, a única coisa que ele pode fazer é dar uns gritos pra eu me acalmar e engolir o choro - que não vai adiantar, mas eu digo a ele que adiantou porque amar é isso. Espero voltar a vencer na próxima semana.